Tuesday, December 09, 2008

Aula - Peça pocket

Fita crepe colada no chão desenhando um retângulo de 1,5m x 2m. Uma luz intensa de holofote ilumina todo o retângulo.

A Estudante entra no retângulo.

Estudante - Minha vez. Está bem. Tenho que fingir ou "representar" (o que dá no mesmo), que estou farta cada vez mais farta e quero sair daqui, desse retângulo, mas não posso. Muito bem!

Ela olha para o público e começa a andar de um lado para outro.

Estudante - Não aguento mais isso, preciso sair daqui, preciso sair daqui. Que fala mais óbvia! Vou tentar sofisticar esse negócio.

Ela pára, respira fundo e recomeça.

Estudante - Preciso me tirar dessa situação, é insuportável, não fui feita para isso! Aliás, como é que eu fui me colocar nisso? Na verdade eu não preciso fazer isso, eu nem gosto de atuar! Podia ter inventado uma desculpa besta e me safar desse retângulo ridículo.

Passa a andar de lá para cá e olha para o público novamente.

Estudante - Put... tá todo mundo olhando. A professora ali fica achando que eu devo me empenhar coisa e tal, ela nem me conhece! E aquele fulano que tenho que chamar de meu colega, está se divertindo! Não é ele aqui. Eu estou aqui. Confortável com as pernas cruzadas aí, não? Espera só quando eu estiver aí, aí fora desse retângulo!

Ela olha a fita crepe e não se conforma e fica parada, pensativa.

Estudante - Não passa! O tempo simplesmente não passa! Quanto dos dois minutos devem ter passado, uns 30 segundos? Ai, não. Vou ter de enrolar. Não tem outro jeito! Então... eu quero sair daqui. Não posso continuar nesse, nesse lugar. Meu sangue foi todo para as pontas do meu corpo, parece que vou explodir em zilhões de pedacinhos, de tanta vergonha, de tanta raiva, de tanta impaciência, é eu estou impaciente, mas ainda não estou descontrolada, isso é um ótimo sinal.

A Estudante anda de lá para cá e começa a confirmar algo com a cabeça antes de falar.

Estudante - É nisso que chegamos. Sim, a gente estuda, aprende, estuda, aprende, estuda mais um pouco para isso. Para isso aqui! Para acabar num retângulo imaginário verdadeiro. A fita crepe é de verdade... eu querer sair daqui é imaginação, pura imaginação. Eu posso sair a qualquer hora. Na verdade eu posso sair daqui agora.

Ela arrisca pisar fora do retângulo mas se detém.

Estudante - Ih, a professora nem se mexe. Acho que tô mandando bem. Deve estar acabando, será? Era para eu estar querendo sair daqui, era para parecer de verdade. Mas eu quero sair daqui e quero de verdade! Esse lugar é minúsculo, não tem nada aqui. Nada para fazer. E eu preciso fazer alguma coisa, entendeu? O tempo todo, mesmo que seja fazer nada, mas eu preciso estar fa-zen-do! Sou fruto do meio, sou pilhada, ansiosa, tagarela, desatenta, leia-se multi-atenta. E o que é que eu vim fazer aqui? Entrar para querer sair. E tem sentido isso? Agora me diga se faz algum sentido isso. Não, não faz. Não tem sentido. Nada tem sentido, eu não tenho sentido. Acabou, posso sair? Ela não diz nada, a professora quer ver até onde eu chego, quanto eu suporto. E eu suporto, sabe por quê? Por que eu suporto tudo, eu aguento tudo, até me enfiar num retângulo de fita crepe sem o menor sentido!

Ela bufa.

Estudante - Situação idiota. Eu sou uma grandissíssima idiota. Planos, sonhos, amores, diversões, conquistas... deu nisso. Sim, eu vou sair daqui um dia. Vou poder sonhar, amar de novo. Tranquila, na minha. Nossa, como eu vou amar quando sair daqui, vou amar muito, trepar para caralho, vou amar todo mundo, vou tomar muitos porres e amar em público, em cima da mesa, pode escrever. Vou dar na frente da professora, isso sim vai ser uma grande atuação. Quero ver a cara dela, constrangida, pensando: "Não confunda atuação com demonstração." Ou ainda: "Não se deixe levar pelo seu ego. Atuar é mentir de verdade." Sei, e quem disse que eu quero mentir? Eu não quero mentir eu quero é sair daqui! Sair, sair, entendeu? Não aguento ficar presa numa idéia, e justamente à idéia de ficar presa! Eu estou presa, presa, presa pela hierarquia educacional desse edifício que chamam de escola. E pensar que fui eu mesma que me prendi aqui. Eu estava louca para entrar nessa escola! Onde eu estava com a cabeça, santo deus!

Ela olha o chão, desolada.

Estudante - Deixa eu sair? Deixa! Ela me olha como se não me visse e no entanto, me olha como se me conhecesse mais do que eu mesma. Arrogante.

Ela anda de um lado para o outro, parece tramar algo.

Estudante - E o que eu faço agora? Não devia ter pedido para sair, mostrei fraqueza, que coisa! Eu pedi, mostrei que entendo minha posição de subordinada, de aluna, de inferior. Quando deveria simplesmente ter saído do retângulo e pronto. Foda-se a instituição. Foda-se o que os outros querem. O que vale é o que eu quero, o que eu acho. Por isso estou aqui, para elaborar as idéias que eu tenho. É isso! Entendi a jogada. Vou surpreender, ah se vou. Agora eu não saio daqui. É. Vou ficar até ela me arrancar daqui. Pronto! Está resolvido. Não saio daqui, não vou sair nem que a vaca tussa. E não vou fazer nada também. Vou fazer o contrário. As pequenas revoltas, as pequenas revoltas são as mais importantes. Pronto, vou ficar calma. Vou relaxar.

A Estudante alonga o pescoço, suspira fundo.

Estudante - Ai que bom. Como é bom a gente se dominar, né. Tá vendo, eu não quero mais sair daqui. Nunca mais. Aí fora estão todos os meus problemas, aqui dentro nada, ninguém. E ninguém pode entrar enquanto eu estiver aqui, porque é a minha vez. Eu tô na vez! Tô comandando. Tô no comando pleno das minhas vontades que, diga-se de passagem, suplanta as vontades alheias. Fácil. É só entender o jogo. A luz é minha, o retângulo é meu. Quem manda agora sou eu. É...

O holofote se apaga.

Estudante - Ei!

Professora - Seu tempo acabou.

Estudante - Como assim, acabou?

Professora - Quem é o próximo?